sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

A opinião do Professor José Hermano de Saraiva

A minha mãe, como amiga pessoal do Professor José Hermano de Saraiva, teve a ideia de, no ano passado, enviar um original do romance que aqui publicito ao cuidado do professor, de maneira a que ele pudesse dar a sua opinião ou, eventualmente, escrever um prefácio para o livro.
A resposta chegou este mês:
Palmela, 28-12-2006


Prezada e ilustre amiga:

O povo diz que “o Diabo tece-as”. Eu não acredito no Diabo. Mas lá que ele as tece, tece.
A sua carta, acompanhando o original do livro do seu filho, tem a data de 27 de Setembro, e só ontem ma entregaram. Suponho que a culpa do atraso não será dos Correios, mas da Videofono, onde demoram a correspondência até encher a mala.

Li, de través (i.e., li o princípio e o fim, porque hoje fiz um programa e não tive tempo para mais) o original do seu filho. Li o suficiente para sentir que estamos perante um grande escritor. Grande com maiúsculas das maiores. Inquieta-me que seja tão novo: o que me impressionou foi a força do génio literário, ou apenas um clarão de juventude?
Fiquei impressionado pelas páginas que li. É difícil dizer porquê. Vou tentar explicar-me com recurso a uma imagem. Sabe, como toda a gente, o que é o arco-íris. E também sabe que toda a gente diz que o arco-íris tem sete cores. Mas é evidente que isto é uma afirmação boçal e primária. O arco-íris não é um arco às riscas. Cada tonalidade transmite-se em tons de transição à tonalidade seguinte. Nisso, o arco-íris é uma imagem da nossa Alma. Não temos só Bom e Mau, Preto e Branco. Há uma infinidade de tons, que só os receptores excepcionais apreendem, e que raríssimos mortais conseguem transmitir. Ora, o seu filho vê, descreve, e faz-nos participar nos tons intermédios da Alma humana. É um caso extraordinário, e se os anos vindouros não asfixiarem a planta que agora desponta, estamos todos de parabéns: existe mais um grande escritor em Portugal.
Sinto isso, e sinto-me muito feliz por lho dizer. Sendo assim, porque não escrevi um Prefácio? Porque me falta inteiramente crédito para isso. Sou jurista e sou historiador. O seu filho merece um prefácio de um verdadeiro crítico literário, matéria que para mim é seara alheia. Penso até que qualquer presença minha no livro o desvalorizaria: seria como um pingo de chocolate numa camisa branca.
Sugiro-lhe, por isso, que se dirija a algum verdadeiro crítico literário. Por exemplo, ao Dr. Urbano Tavares Rodrigues. Pode fazer desta carta o uso que entender, e até publicá-la como anexo a uma verdadeira introdução. Ou mostrá-la simplesmente ao editor. Mas não utilizá-la como prefácio. Sinto que isso seria como recorrer ao serralheiro para lapidar o diamante, ou como fritar um lacrau num puré.
Por mim, continuo a trabalhar epilepticamente. Sai agora mais um livro meu, pelas “Selecções”. É a altura dos verdadeiros amigos(as) me darem um abraço.

Seu sinceramente devotado:

José Hermano de Saraiva.
Ao Exmo. Senhor Professor Dr. José Hermano de Saraiva, o meu MUITO obrigado!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Introdução

Olá! O meu nome é Daniel Campos, tenho 20 anos de idade e, além de ser solteiro e bom rapaz, tive a oportunidade de publicar um romance da minha autoria, intitulado "Quando só o olhar fala", pela chancela das Edições EC (podem saber mais acerca da editora em http://www.escritacriativa.com/ ).


Considerei que, ao invés de tentar definir a obra através de sinopses curtas e incompletas, é preferível transcrever alguns capítulos da mesma neste blog, para que cada pessoa possa dizer de sua justiça!

Se estas linhas que aqui vou deixar o cativarem e lhe derem vontade de adquirir o livro (porque, para que eu possa continuar a alimentar o sonho de dar a conhecer as minhas ideias a todos, tenho que dar saída a este romance através da divulgação e da venda), contacte-me pelo email danicampos2@hotmail.com .

O preço será de 13€ com os portes já incluídos (o volume do livro - tem 376 páginas - aumenta-lhe o preço, lamento... :( ), bem como uma dedicatória simpática e personalizada! :)

Seguidamente, apresento os cinco primeiros capítulos de "Quando só o olhar fala". Espero que apreciem!

Capítulo I

I

- É o que eu digo, – gritou o rapaz – ninguém pode contar contigo quando realmente precisa! Estás do meu lado quando quero privacidade, invades-me quando preciso do meu espaço, atrasas-me quando já não estou propriamente adiantado, foges quando preciso da tua presença, desapareces quando julgo que estás comigo, nem sequer apareces quando anseio por ti. E pensar que ainda gosto de ti. Vamos lá, acelera mas é esse passo senão ainda perco o autocarro. Mas espera, é isso que queres, não é? É esse o teu jogo! Não, não te vou dar o prazer de parar aqui, fazer figura de parvo a falar para alguém que mais não faz senão fitar-me e falar com o olhar.
Mas parou em plena Baixa e olhou para ela. Ou pelo menos assim pareceu fazer. A Baixa é sempre o mesmo corrupio de gente que não anda mas corre, que não fala mas grita, que desdenha mas procura, que analisa mas não compra. Ninguém quer saber dos problemas passionais do Diogo e da Inês. Ninguém pára para ver e ouvir a conversa entre os dois no meio daquele bulício interminável e caótico. “Não será, de qualquer forma, uma coisa de doidos parar a discutir no meio da rua?”, pensou ele. Muito depressa muda Diogo de ideias. Apesar dos vinte e dois anos de idade e do curso quase concluído, age como se não tivesse a personalidade solidamente definida e como se ainda não conhecesse Lisboa e os seus truques de sobrevivência, mesmo após quatro anos de residência na capital. Mas conhece. Talvez tenha até adaptado uma forma única de sobrevivência na selva de betão. O que é certo é que a Inês, a rapariga que talvez escolhera para si, – ou talvez não, ele próprio não definia o que aquilo era, se amizade, se amor, se ódio – nunca lhe dirigia a palavra. Apenas o olhar, tão profundo, tão escuro, tão misterioso – ou pelo menos assim Diogo o via e sentia.
- Vais-me fazer perder de novo o autocarro. Já vi que tens prazer nisso. O que ganhas em estar aqui quando não te quero e em desaparecer quando só penso em ti? E o que vences ao me fazer atrasar, dia após dia?
Diogo viu-a a fazer um olhar que pedia misericórdia, uma súplica silenciosa e terna, capaz até de cativar um carrasco incumbido de zelar pelo sofrimento de uma criatura humana.
- Enganas-me sempre. Não conheço rapariga como tu. – disse, em voz ciciante – Vamos embora. Também tens que trabalhar.
E foram descendo as ruas da Baixa, num passo acelerado. Aqui e além via-se – ou ouvia-se – um incoerente orador a praguejar contra as políticas do governo, mendigos a pedir esmola, pintores de rua com enorme talento marginal, até se vislumbrava um ou outro indivíduo louco a falar com o ar, com uma porta, com uma montra. Diogo olhou para Inês e disse:
- Às vezes sinto que, quando estou a falar contigo, faço uma figura igual àquela. E não olhes assim para mim, sinto-o mesmo.
E foi então uma carícia terna, apenas sentida por Diogo, que lhe retirou tais pensamentos da cabeça. E seguiram o seu caminho até à esquina da loja das meias.
- Não Inês, não vais querer parar aí! Já tens meias suficientes, cada par mais colorido que o outro.
Mas um impulso irresistível comandado por um olhar cheio de alegria e prazer levou-o para dentro da loja. E aí foi novamente controlado pelos gestos e acções da Inês, que parecia mexer em todas as meias, desde as de padrões coloridos que eram um verdadeiro atentado ao bom gosto até às pretas ou brancas, mais clássicas, passando ainda por algumas com personagens da banda desenhada estampadas.
- O Tweety, amor? Acho que já lá tens umas quantas com ele. - Mas Diogo engoliu em seco, ao reparar que ele próprio trazia umas meias com o famoso Piu-piu estampado.
Largos minutos passaram até ela chegar a uma decisão sobre o que havia de levar para si.
- São estas coisas coloridas? - perguntou Diogo, ao que Inês respondeu com um olhar afirmativo - Já vou pagar, vê se queres mais alguma coisa. Mas não procures com tanta exuberância, aquelas pessoas ali já estão a olhar para nós há algum tempo…
Chegou-se então à caixa e, com um enorme sorriso na cara que demonstrava um grande contentamento em poder comprar à sua amada aquilo que ela queria, pagou as meias. “Que coisa mais cara”, pensou ele. Mas voltou a sorrir com a ideia de que iria tornar o dia dela mais feliz.
Voltou-se para trás com as meias na mão e procurou por ela. Ainda a chamou, mas não estava ninguém na loja. Perguntou a uma funcionária se tinha visto uma rapariga morena de estatura média, longos cabelos pretos e grandes olhos escuros, lábios carnudos e formas curvilíneas, mas ninguém vira tal paradigma de beleza feminina por ali. Então Diogo saiu, preocupado, deixando o pessoal da loja com um sorriso na cara.
- Aquele deve achar que a namorada é a coisa mais linda do mundo, viste como a descreveu?
- Vi! Ai, quem me dera que o meu João falasse assim de mim...
- Talvez até fale, nós não os ouvimos. Quem sabe, talvez todos os homens digam maravilhas das suas namoradas e mulheres quando elas não estão presentes…
Mas Diogo já praguejava contra Inês na rua. Não a encontrava em lado nenhum. Nem no café, nem na papelaria, nem na loja da roupa, nada. Ela fugira mais uma vez na pior altura. Era sempre assim: ele queria ser prestável, mas ela não ficava lá para ver o resultado de tal altruísmo. Ele comprava-lhe uma coisa, mas ela nunca lá estava para a receber em primeira-mão e depois já não queria saber. Ele ia aflito à casa de banho e ela desaparecia como a aflição que ele tivera segundos antes. Não valia a pena tentar agradar. Aquele amor parecia alimentar-se de momentos de desilusão, crescer com o acumular de desaparecimentos repentinos e reaparecimentos inoportunos. Mas o olhar, aquele olhar… Diogo não o queria perder, queria guardá-lo só para si num recanto aconchegante da sua alma, lembrar as ocasiões em que os olhos de Inês o fizeram chegar atrasado a um jantar, ou perder o autocarro mais uma vez…
Perder o autocarro! Isso estava prestes a acontecer de novo. Diogo lançou-se numa correria rua abaixo até à paragem de autocarros, na Praça do Comércio, mesmo a tempo de ver o seu transporte a partir, apinhado como de costume. Atirou o saco da loja das meias ao chão e pontapeou-o, enraivecido. Depois conteve-se, envergonhado pelos olhares inquiridores dos transeuntes que ficaram na paragem à espera de outra carreira, e apanhou o saco. Entretanto, começou a chover. O abrigo da paragem estava ainda repleto de gente e o autocarro seguinte só passaria daí a um quarto de hora.
- Nada me corre bem – disse, em voz sussurrada e imperceptível – Agora é que eu precisava de ti…
Mas ela não veio. Mais uma vez, deixou Diogo preso à sua memória e a uma prenda que lhe comprara e que, invariavelmente, nunca lhe iria entregar. E aí ele lembrou-se que as meias do Tweety que calçava tinham sido, em tempos, uma lembrança que ele nunca lhe entregara, um beijo terno em forma de peça de roupa que nunca saíra dos seus lábios. “É o que dá namorar com uma rapariga que tem prazer em nos fazer sofrer”, pensou. “Mas ela é única, e o nosso amor é único. Não a quero perder, embora a perca tantas vezes, apenas para depois a reencontrar…”

Capítulo II

II

O autocarro chegou, cheio como sempre. Diogo ficou em pé, tentando preparar-se psicologicamente para vinte minutos de jornada numa lata de conservas com algumas dezenas de sardinhas companheiras. No meio de tantos rostos iguais na sua diferença, ela lá estava, com um olhar irónico, sentada num dos bancos de trás. O impulso de Diogo foi correr até lá atrás e apertar-lhe o pescoço até quase sufocá-la, mas conteve-se e ficou no seu lugar. Talvez fosse boa altura para lhe dar o desprezo que tantas vezes recebera da parte dela. Havia que fazê-la provar do seu próprio veneno, ver a reacção dela face a um desdém tão grande e inesperado vindo dele. E então ele manteve-se quieto no seu desconfortável lugar em pé, evitando virar-se para trás, negando-lhe vilmente um simples olhar. Perguntou as horas a outra pessoa, constatou que já estava uns minutos atrasado. Ainda faltava mais de metade do percurso e o autocarro sempre a parar em todos os locais possíveis. E ela lá no fundo, olhando de forma penetrante para o Diogo, convidando-o a ir ter com ela, lançando-lhe beijos em forma de faíscas que os seus olhos libertavam. Ele começara a suar em bica, a face ficara rubra, o coração palpitava. Estava difícil resistir ao encanto da Inês, aquela rapariga que estava sempre presente nos momentos em que não precisava dela e que desaparecia assim que tudo estava bem. Que fazia ela no mesmo autocarro que ele? O trabalho dela não ficava a caminho da faculdade. “É o que digo”, pensou ele, “Deixou-me a mal comigo próprio e com ela, e agora vem provocar-me enquanto caminho para a faculdade…”
Talvez fosse mesmo provocação aquilo que ela pretendia, pois ele julgou vê-la a levantar-se lá atrás e a caminhar, em passo lento, por entre aquela amálgama de gente, em direcção a ele. Inês dirigiu-lhe um olhar matador, daqueles que aceleram o ritmo cardíaco e fazem com que se cometam loucuras num arrebatador momento de paixão. O autocarro parou. Ela piscou-lhe o olho e precipitou-se pela porta entreaberta, por entre um grupo de pessoas que saía naquele preciso momento. Num impulso incontrolável e irresistível, Diogo também saiu aí, várias paragens antes do seu destino. E procurou-a por instantes. Mas ela voltara a desaparecer, não havia rasto dela. Também o autocarro se volatilizara como que por artes mágicas, tudo parecera acontecer num lancinante segundo. Quando Diogo se preparava para se sentar na paragem, mais uma vez derrotado e defraudado por alguém que acreditava amar, eis que ela aparece, sorridente e com um olhar cativante, acenando do outro lado da rua, no pequeno jardim à beira rio. “Não vou ter contigo”, pensou ele, “Já tive a minha dose diária de desprezo, agora é a tua vez.”. Mas ele julgou vê-la a apontar para o saco que trazia na mão, como quem pergunta “É para mim?”. Cativado por esse raro momento de interacção gestual, ele levantou-se e acenou afirmativamente para o outro lado da movimentada rua. Ela sorriu abertamente e lançou-lhe um olhar daqueles que chama, que prende, qual cântico de sereia desmistificado num singelo momento visual. Ele procurou a passagem aérea mais próxima, pois o trânsito ali não permitia aventuras nem veleidades. “A ponte é uma passagem p’rá outra margem[1]”, cantarolou ele enquanto passou por cima daquele rio de trânsito infernal. Mas na outra margem, a sereia cativante desaparecera enquanto ele procurara a passagem aérea.
- Vaca! – gritou ele, desesperado, para espanto de quem passava por ali. Deu um pontapé no saco das meias e deixou-as ali mesmo, abandonadas, esquecidas, junto a um miserável banco de jardim.
Do outro lado, o autocarro aproximava-se. Desta feita, Diogo esqueceu-se da passagem aérea e passou pela estrada, entre o atribulado trânsito de uma matinal segunda-feira. Entrou mesmo a tempo no seu transporte, desejando que fosse dessa que finalmente chegasse ao seu local de estudo.
E foi. Com uma hora de atraso, Diogo saiu na paragem certa. A Inês não o importunou mais, até porque também ela já devia ter chegado atrasada ao emprego com tanta perseguição e brincadeira de mau-gosto. Apesar do atraso, ele não dispensou uma paragem na papelaria próxima da faculdade, para ler as manchetes do dia. Os jornais desportivos mostravam sempre um dos “grandes” na capa, em letras garrafais, enaltecendo mais uma vitória ou referindo um inesperado desaire de um Benfica, Sporting ou Porto. Os jornais sensacionalistas falavam de traições, bruxas, adivinhos, polémicas inventadas e cachets que certas estrelas pediam para a sua participação em programas de televisão. Diogo não escondeu um sorriso ao ler que a Bruxa da Santíssima Trindade tinha batido com um tacho na cabeça do Leopoldino das Couves, afamado adivinho português que lia o futuro nos vegetais que plantava na sua horta mágica, pois esse tinha previsto a morte da Bruxa até ao Natal – e já não faltava muito tempo para que isso acontecesse…
- Estes jornais são melhores que um livro de anedotas! – disse alguém que se aproximara de Diogo.
- Oh Pedro, estás bom?
- Estou fino. Atrasado para a aula, mas já vi que não sou o único. Tenho que me deixar destas noitadas de domingo para segunda-feira…
- Eh pá, nem me digas nada! A Inês hoje não me queria deixar vir, perseguiu-me por todo o lado, depois desaparecia e deixava-me em cuidados…
- A Inês? Qual Inês?
- A minha namorada. Já estou a ficar farto de algumas brincadeiras dela… Comporta-se como uma criança, por vezes.
- Mulheres, cada uma com a sua idiossincrasia própria… Mas deixa-me levar um desses jornais sensacionalistas, quero rir um bocado.
E lá foram eles para a faculdade. Diogo olhou em volta, como para se certificar de que não tinha sido seguido pela Inês. Não a encontrou em lado nenhum, também seria estranho que ela ali tivesse chegado ao mesmo tempo que ele. Mas como a vida de Diogo estava repleta de factos e acontecimentos estranhos, nada seria de admirar.

[1] Referência à canção “A Ponte é uma Passagem”, dos Jáfumega

Capítulo III

III

O que vale é que a vida de estudante universitário permite alguma liberdade no que toca a faltas e a atrasos, até porque sobejas vezes é a própria faculdade que falta ao que se comprometeu a fazer e se atrasa a cumprir com as tarefas que lhes são impostas. Faltou à promessa de atribuição de cacifos a todos os alunos e atrasou-se na correcção dos exames de uma determinada cadeira, isto apenas para citar dois eventos entre vários. Claro que não se pode culpabilizar a instituição pelos erros de algumas pessoas, mas como essas também não os admitem, acaba por ser a faculdade, em última análise, a arcar com a culpa. Mas como “faculdade” não é o nome próprio de ninguém, dizer que “a culpa é da faculdade” é o mesmo que dizer “a culpa é do Governo” – tudo fica na mesma, são clichés fáceis, baratos e nulos. A vida em sociedade é assim mesmo, feita de injustiças e de expressões pré-concebidas. Não há que discursar contra a vida ou contra as instituições, há sim que se demonstrar um mimetismo especialmente aguçado para se poder ocultar nos momentos certos, ou para se poder mostrar a toda a gente quando isso é necessário. Claro que há sempre quem faça o contrário, quem se mostre no momento errado e se esconda quando deve aparecer. “Malvada Inês”, talvez fosse o que Diogo pensaria ao tocar neste assunto. Pois, há pessoas que têm o condão de aparecer no momento errado, no local errado, sistematicamente. Também haverá certamente as que fazem o contrário, mas essas pessoas não serão alunos universitários, lutando pela melhor média possível que lhes dê entrada directa no mercado de trabalho; esses apenas têm o condão de ser pessoas normais, se é que se pode dizer isto.
- Sabes o que acho? – perguntou Pedro, virando-se para Diogo – Acho que os aliens andam por aí.
A teoria dos aliens, desenvolvida pelos dois colegas de curso, era bastante curiosa. Talvez até explicasse muitos dos problemas da faculdade, e até mesmo do nosso mundo, não fosse a sua inverosimilhança e completa inadequação à realidade. Segundo Pedro e Diogo, tudo começara pela altura da extinção do tigre-dentes-de-sabre e do mamute, que como toda a gente sabe foi causada por uma invasão alienígena – já a extinção dos dinossáurios, uns milhões de anos antes, fora causada pela explosão de uma carga de napalm de dimensões bíblicas, não por um meteorito como se julga. Os alienígenas tinham vestimentas de pele de urso-pardo, umas armas a que chamavam “moca” e faziam fogo friccionando sílexes. A História conheceu tais seres como “homens pré-históricos”, quando na realidade eram um povo oriundo de um planeta para os lados de Antares. A sua semelhança com os verdadeiros seres humanos permitiu alguns cruzamentos viáveis ao longo de milhares de anos, sendo que hoje em dia a Humanidade é um misto de homens, antarianos e híbridos viáveis de ambas as espécies.
- Os antarianos estão no governo, no futebol e em altos cargos nas diversas faculdades. – era a conclusão óbvia de tal teoria da conspiração, segundo Diogo.
- Então porquê? – perguntou Joana, colega de Diogo, ao ouvir esta explicação cientificamente refutável pela primeira vez.
- No governo, vê-se a sua capacidade de adaptação a terrenos novos e hostis; no futebol, descobre-se que os jogadores e dirigentes são antarianos devido à sua agressividade, lembro que foram eles que levaram à extinção do mamute; nas universidades, basta pensarem um pouco…
Bem, o que é certo é que a conspiração foi intensamente trabalhada e explorada, aparecendo até por amiudadas vezes novos factos relativos a ela na revista da associação de estudantes, na qual Pedro colaborava. Por vezes escreviam-se até insinuações cujas consequências não seriam nada agradáveis, caso chegassem aos ouvidos de certos professores. A regente de uma determinada cadeira era vista como uma antariana ninfomaníaca que, não podendo suprir os seus profundos desejos sexuais, se vingava fazendo testes-surpresa aos alunos, testes esses que demoravam mais de um mês a ser corrigidos e que devolviam péssimas notas. A rabugenta funcionária da tesouraria era também vista como uma alien, o que justificava em parte a horrível verruga com pêlos que tinha no nariz.
- Não é alien, é híbrida – corrigiria Pedro, numa edição subsequente da revista.
Poucas pessoas sabiam quem escrevia tais histórias mirabolantes, e as opiniões dividiam-se entre os que achavam aquilo hilariante e os que consideravam tais invenções como insinuações sem piada e ofensivas, saídas de mentes doentes e esquizofrénicas. Mas a verdade é que se falava bastante da invasão alien, e alguns homens até se afastavam do terceiro urinol da casa de banho, o qual, segundo a conspiração rezava, se encontrava sempre avariado por ser através dele que se acedia a um laboratório secreto de manipulação genética antariana.
- É uma alienação completa! – dissera Diogo uma vez, para risada geral dos poucos que estava a par da verdade.
Quem sabia de tudo eram duas pessoas para além deles – a Joana e um outro rapaz da associação. A Joana era uma rapariga simpática e bonita que fazia parte do pequeno “grupinho” de Pedro e Diogo, e que já conhecia este dos tempos de escola. “Parece uma coisa de secundário”, dizia ela, por vezes, referindo-se ao facto de andarem quase sempre juntos. A verdade é que a distribuição dos alunos pelos horários era propícia a isso mesmo – cabiam poucos alunos em cada horário, o que fazia com que os elementos de cada turma rodassem constantemente. E eles mantiveram-se no mesmo horário ao longo dos quatro anos do curso. Diogo sempre teve um fraquinho pela Joana, embora nunca tenha tido coragem de lho comunicar. Até porque depois veio a Inês e a sua vida mudou.
- Tu és tão parecida com a Inês – disse ele uma vez à Joana – Ás vezes até parece que só o nome muda.
- Pois, tens-me chamado tantas vezes Inês ultimamente… Dantes não eras assim.
- Desculpa, é que eu não conheço nome mais bonito que esse. Atenta na sonoridade: Inês…
- Eu conheço um mais bonito: Joana. – disse ela, com um sorriso e um olhar malandros, um tanto ou quanto infantis.
Mas ela era realmente parecida com a Inês, ou pelo menos com a forma como Diogo via a sua namorada. Cabelos pretos e longos, olhos grandes e escuros cheios de expressão, morena, curvilínea… “Talvez um pouco mais baixa e cheiinha”, como dizia o Diogo.
- Estás a chamar-me gorda! – resmungava ela
- Não, Joana, de gorda não tens nada! – desculpava-se ele.
E ela fazia um trejeito de zanga, fechava os olhos e cruzava os braços, muito séria. Mas logo abria um olho e espreitava o Diogo pelo canto, lançando-lhe umas centelhas de riso que o contagiavam.
- É que os olhos também se riem, e os teus riram-se para mim! – respondia Diogo, quando ela lhe perguntava porque se estava a rir. – Não te consegues zangar comigo, conheço-te tão bem…
- Não consigo? Quanto queres apostar?
Mas os olhos logo a denunciavam, mostrando uma sensação de divertimento e deleite com aquela situação de zanga simulada. É que pelo olhar vê-se o estado de espírito e a alma, e Joana era alegre e divertida. “Também a Inês é assim.”, pensou Diogo, “Mas nunca está comigo quando preciso dela, e aparece quando não a quero por cá. Até dá raiva.”

Capítulo IV

IV

A faculdade não notou a falta de Diogo e Pedro na primeira aula da manhã. Mas Joana notou, e fez questão de os repreender no intervalo antes do segundo tempo.
- Seus baldas! O que andaram a fazer? – e, virando-se para Pedro, continuou – De ti já se espera isto, não és bom da cabeça, não lembra a ninguém passar-se a noite de domingo num bar quando se tem aulas na manhã de segunda-feira. Acabas por faltar sempre a uma ou duas aulas, naturalmente! Agora tu, Diogo, não é normal... Acompanhaste o Pedro na sua jornada nocturna?
- Nada disso, Joana! Nem calculas o que se passou, a Inês perseguiu-me por todo o lado…
- A famosa Inês… Quando é que ela te persegue até cá para a conhecermos?
- Não sei, ela é um pouco tímida, e às vezes desaparece assim sem mais nem menos. Acho que nunca a vou compreender, dificilmente entrarei na realidade dela.
- E será que ela entrará na tua realidade? Conversem um pouco sobre isso, talvez seja benéfico para ambos.
- Conversar é coisa que ela não faz. Acaricia-me, olha-me, gesticula-me, mas por qualquer estranho motivo não me dirige a palavra.
- Que estranho! Mas é muda, a tua namorada?
- Que eu saiba não. Mas é uma possibilidade.
- Há quanto tempo andam juntos, diz-me lá?
- Há pouco mais de dois meses.
- Já é tempo de se conhecerem um pouco melhor…
E o dia foi passando sem grandes sobressaltos, até se chegar à hora de intervalo para almoço. Quando se passeava com a Joana no corredor, Diogo julgou ver um vulto conhecido a acenar-lhe do exterior do edifício, junto ao portão. Os raios de um sol que tardou a surgir naquela manhã impediam-no de discernir, com precisão, a quem pertencia aquela sombra familiar. “Espera um pouco”, pediu ele a Joana, dirigindo-se a passos largos para a entrada da faculdade. Era ela, sorridente e alegre como de costume.
- O que fazes aqui, Inês? Não devias estar a trabalhar?
Ele viu-a a acenar a cabeça negativamente e a devolver-lhe um olhar de felicidade. Mais uma vez aparecia assim, vinda do nada. Talvez tivesse saído mais cedo do emprego e, sabendo da hora de interregno que Diogo tem a meio da tarde, decidira fazer uma agradável surpresa ao seu amado, surgindo numa nuvem mágica, aterrando frente ao portão da faculdade dele juntamente com profundos sentimentos de satisfação, amizade e amor.
- Sua maluca, só tu para me surpreenderes assim…
Ela esboçou um sorriso tímido e encolheu os ombros, como quem diz: “Tu já sabes como sou…”. E Diogo sabia. Acariciou mais uma vez a cara de Inês, ou pelo menos simulou esse gesto. Ele reparou então que ela olhou apreensivamente para o corredor de entrada da faculdade e voltou-se espontaneamente lá para dentro. Quem se aproximava era Joana. Diogo deu alguns passos para a frente e entrou de novo no edifício, com um sorriso aberto pintado na cara.
- Ainda bem que vens aí, Joana. A Inês está aqui fora, vem conhecê-la.
- Ah, a Inês! Bem me parecia que estavas a falar com alguém, só que não vi quem era, o brilho do sol ofusca e não permite ver bem quem está lá fora, só se vêem umas sombras difusas…
- Ela está lá fora, anda… – e puxou Joana pela mão, arrastando-a até ao exterior, como se tivesse necessidade de alcançar algo que poderia fugir caso não fosse apanhado a tempo.
E fugiu mesmo. Diogo olhou em redor, estupefacto. Joana não ficou menos admirada e perguntou-lhe onde estava ela.
- Estive a falar com ela aqui mesmo, juro! – e apontou para a portaria vazia junto à porta de entrada.
- De certeza? Esta zona vê-se lá de dentro e não vi mais ninguém a não ser tu…
- Sim! Aliás, ela estava um pouco mais recuada, aí mesmo onde tu estás.
- Ah, então é diferente. Ela deve ter ido ao café, vamos lá ver?
Diogo pensou um pouco e acabou por considerar que não valia a pena. “Decerto voltou a fugir, ela é assim”, disse, encolhendo os ombros.
- Vocês precisam mesmo de mais comunicação. E também lhe devias dizer que os teus amigos não a vão morder.
Mais uma vez envergonhado por uma pessoa que só ele conhecia, Diogo ficou absorto, pensando nas razões que a sua namorada teria para aparecer e desaparecer de forma tão enigmática e repentina. Será que ela queria observar o que ele fazia na rua, para depois ser apenas dele na privacidade do quarto? Será que o queria picar, provocar, ser uma presença constante que o obrigava, dessa forma, a comportar-se bem e a ser fiel? Ou era um teste à força de tal amor tão singular aquilo que ela queria fazer ao aparecer e desaparecer como uma onda do mar?
“Onda do mar…” – disse ele, baixinho.
- O quê? – perguntou Joana, que ainda estava com ele.
- Nada, nada, estava apenas a pensar…
Onda-do-mar até que era um nome carinhoso e que, de certa forma, servia de metáfora para descrever o comportamento de Inês. Vinha, levava Diogo no seu cume, embrulhava-o num vórtice de sentimentos e paixões e desaparecia com o seu rebentamento, misturando-se com a restante água, dissimulando-se até regressar, com mais ou menos intensidade, num ciclo interminável de ondulações sucessivas. Assim era a Inês do olhar enigmático e penetrante – onda-do-mar, comunicadora do olhar.
- Eu bem digo, – disse Pedro, abandonando a conversa que estava a ter com outros colegas e virando-se para Diogo e Joana – estes jornais são o máximo. Ainda agora estava aqui a comentar com o João e com a Rita a notícia deste gajo que quer mudar de sexo porque acha que “ser travesti não é nenhum desafio, porque se sente mulher.” Diz que já tentou ter relações com um pepino mas que se magoou e desistiu da ideia. O mundo está podre, mas ainda dá para darmos umas gargalhadas dele!
E riram-se com a fotografia do famoso travesti, exuberantemente vestido e pintado, ocupando página inteira do dito jornal.
- É parecido contigo! – gozou Joana, virando-se para o Diogo, que simulou um semblante de indignação e irritação para com ela, o que gerou ainda mais risos.
- Deixa-te de coisas, rapariga… – e Diogo olhou para Pedro – E tu não tens mais nada que fazer senão ler os jornais sensacionalistas?
- Tu também os lês… Isto é como os reality-shows: toda a gente fala mal, mas todos gostam de ver uma ou outra vez.
- É uma alienação, é o que eu digo! Os aliens andam mesmo por aí… Esse travesti é a prova irrefutável!
- Sem dúvida! – concordou Pedro – É verdade, já almoçaram?
A resposta foi negativa. Comeram juntos, no refeitório, em poucos minutos. Mas, com aliens ou sem eles, era tempo de se assistir às últimas aulas do dia. Qual pequeno rebanho comandado por um invisível pastor, os diversos alunos que por ali andavam foram-se dirigindo para o auditório para “acabar o dia em beleza”, como ironizou Diogo.

Capítulo V

V

As pessoas menosprezam o poder de um simples olhar. Há a tendência de se considerar a fala como o principal método de comunicação, pelos mais óbvios e elementares motivos: é com ela que nos entendemos, que dizemos o que está bem e o que está mal, que orientamos e desorientamos, que acariciamos e agredimos, que ofendemos e elogiamos, que comunicamos ao outro o que vai na nossa alma. Mas a palavra pode ser o reflexo da hipocrisia que queremos demonstrar, cada frase que proferimos pode estar carregada dos mais falsos juízos de valor sobre o que acreditamos e vivemos. A fala é uma arma, é uma faca de dois gumes, dicotomia constante e áspera entre dois mundos. A fala é o espelho do Homem, reflecte todos os seus defeitos e virtudes, ainda que não o percepcionemos na altura em que a palavra é dita. A fala é a mentira e a verdade, o imaginário e o concreto, mostra aquilo que somos e aquilo que queremos ser. Mas o olhar apenas reflecte a verdade. Há muitas frases feitas que versam sobre este tema: “o olhar é o espelho da alma”, “os olhos nunca mentem”… Cada uma sintetiza de forma correcta o verdadeiro e importante papel que a visão desempenha no nosso mundo, não apenas como forma de termos a primeira percepção do universo que nos rodeia, mas também como maneira de transmitirmos a esse universo o nosso mundo interior. Ainda que os nossos gestos indiquem que tudo está bem, o olhar denuncia que algo não está certo. Ainda que nos vangloriemos de um facto que não nos é legítimo, o olhar viaja para longe, como que tentando fugir da mentira que a fala impõe. Ainda que digamos detestar alguém, os olhos dizem amar. Se é facto que os olhos são o espelho da alma, não é menos verdade que apenas somos nós próprios quando só o olhar fala.
Talvez fosse por isso que Diogo gostava tanto de Inês. Em nenhuma situação era tão óbvia a linguagem do olhar como naquela que ele vivia. Todas as dissertações que se podem fazer sobre a comunicação são meramente teorias, mas a vida dele era a prática que corroborava as ideias pré-estabelecidas sobre o poder do olhar.
De volta ao quarto após mais um dia de aulas e um fim de tarde a conversar com os amigos, – as segundas-feiras terminam pouco depois das quatro horas, pelo que há sempre tempo para dois dedos de conversa e uma chávena de café – Diogo deitou-se a descansar antes de recomeçar o estudo que não pudera fazer na faculdade. Mas descanso não houve, até porque Tiago, seu colega de apartamento, estava numa de amaldiçoar o mundo em altos berros, no quarto contíguo.
- Merda para tudo isto! Que se lixe tudo, que se dane a vida…
- Então homem, que se passou? – perguntou Diogo, solícito.
- Porra, não é que o que me andavam a dizer é mesmo verdade? E eu já estava a pensar em dar um murro nos cornos àquele gajo…
- O quê, em relação à tua namorada?
- Sim! Esta noite segui o conselho que ele me deu e fui às quatro da manhã às docas. O gajo andava a dizer-me que ela passa lá a noite de domingo para segunda, sabes que ela não trabalha nas segundas-feiras de manhã. Lá estava ela a sair de um daqueles barzinhos que ficam abertos toda a noite, com um gabiru qualquer, toda alegre, a rir-se, bem disposta, bem arranjada… Mas nos sábados, quando pode ficar aqui comigo, está quase sempre com dores de cabeça e a vida nunca lhe corre bem! E nos domingos raramente pode vir, tem sempre alguma coisa a fazer. Agora já sei o quê! Aquela vaca…
Diogo ficou mudo, sem saber o que dizer.
- Sabes uma coisa? – continuou Tiago - De vez em quando gozo com o teu relacionamento, porque ela não se quer dar a conhecer aos teus amigos e porque praticamente não te fala… Mas sabes? Tu é que tens a companheira ideal. Mais vale falar pouco e ser sincera que estar repleta de patuá e fazer estas merdas nas costas de um gajo. – e deu mais um safanão nas suas coisas – Que merda! Olha, não fiz nada produtivo. Como se costuma dizer, fui beber para esquecer, cheguei aqui depois do almoço e deitei-me a dormir para não me lembrar destas coisas. Acordei há um bocado e tenho estado a lembrar-me de planos maquiavélicos para me vingar. – deu alguns passos pelo quarto – Ou então não. É tão simples como dizer: “Está terminado. Fica com ele, decerto não queres saber de mim para nada.”. Mas qual quê! Ela merece ser esganada. Ainda no sábado esteve aqui comigo todo o dia, juras de amor, beijos, palavras carinhosas, “és o meu bijou”, “meu peluchinho”, blá, blá… Porra! Que grande cabra! E tu nunca te cruzaste com ela. É pena, se já a tivesses visto terias ficado a saber qual é o aspecto de uma verdadeira cabra.
- Como te olha ela quando te diz isso? – perguntou Diogo, timidamente.
- Como me olha? Sei lá como me olha! Olha-me naturalmente, acho eu.
- Não sabes? Nunca sentiste o calor do olhar dela quando está contigo e te faz promessas de amor? Se calhar é porque não a amas, ou então ela não te ama a ti.
- Agora também tu implicas? – vociferou Tiago – O mundo está mesmo contra mim! É claro que a amo. Ou aliás, amava, já não a quero ver nem à distância. Ou melhor, quero vê-la para lhe cuspir na cara e a chamar de puta.
- Não ganhas nada com isso. O melhor que lhe tens a fazer é contares que a viste no tal sítio com tal pessoa. Vê a reacção dela, olha-a nos olhos, isso é mais importante do que ouvir os pretextos que ela tem para te dar. Pela expressão facial é que vês se ela fica colérica, se arrependida, triste, vencida, e não pelas desculpas esfarrapadas que te poderá vender…
- Olhar para ela? Eu furo-lhe é os olhos!...
- Acalma-te. Faz o que te digo, põe-lhe as coisas na cara com calma, não percas a razão pois ela está do teu lado. É nestas situações que tens que demonstrar ter carácter, e isso é coisa que tens, não o podes perder.
- Sabes, és capaz de ter razão. Vou fazer jogo psicológico com ela, aposto que a ponho de joelhos a chorar. E vou ter um enorme prazer em fazê-la sofrer, pois é o que ela me tem feito ultimamente. Olho por olho, dente por dente. É pena não poder retribuir-lhe na mesma moeda, com uma traição bem visível. Vaca!
- Por experiência própria, digo-te que não é boa ideia fazer sofrer alguém apenas como forma de vingança por sofrimentos que essa pessoa nos infligiu. Dou-te um exemplo: a Inês tem a mania de desaparecer sem dizer água vai; hoje ela perseguiu-me e eu tentei fugir dela e ignorá-la, a partir de certa altura. Apenas ficas a mal contigo próprio, eu senti que estava como que a trai-la nesses momentos em que a ignorei apenas como “moeda de troca” pelo que ela me faz. E voltei a procurá-la, apenas para chegar à conclusão de que ela tinha desaparecido de novo. Não ganhei nada em fingir que ela era transparente, pois para mim não é.
- Sentiste que estavas a trai-la, mas não o fizeste. A Ana fez isso comigo! Não sentiu apenas a chama da traição, pô-la em prática. É totalmente diferente. Tu não a conheces, nunca a viste, das poucas vezes que ela cá veio não calhou a cruzar-se contigo, nem sequer tenho aqui fotos dela comigo, se tivesse podia mostrar-te para ficares a saber quem é a puta. Ela vai continuar a trair-me insistentemente. Tenho que cortar o mal pela raiz…
- Age como quiseres, mas aconselho-te a manteres a calma, não te vás arrepender mais tarde dos teus actos.
- Podes crer que não me vou arrepender! Só a vejo no sábado, em princípio. Ela só vem nos sábados. Tenho tempo até lá de delinear os tópicos da discussão que vou ter com ela.
- Força, – exclamou Diogo – mas cuidado com o que dizes, é que as palavras podem trair-te da mesma forma que ela o fez contigo, ao dizerem aquilo que não queres que seja dito e ao saírem quando as queres manter apenas para ti…