IV A faculdade não notou a falta de Diogo e Pedro na primeira aula da manhã. Mas Joana notou, e fez questão de os repreender no intervalo antes do segundo tempo.
- Seus baldas! O que andaram a fazer? – e, virando-se para Pedro, continuou – De ti já se espera isto, não és bom da cabeça, não lembra a ninguém passar-se a noite de domingo num bar quando se tem aulas na manhã de segunda-feira. Acabas por faltar sempre a uma ou duas aulas, naturalmente! Agora tu, Diogo, não é normal... Acompanhaste o Pedro na sua jornada nocturna?
- Nada disso, Joana! Nem calculas o que se passou, a Inês perseguiu-me por todo o lado…
- A famosa Inês… Quando é que ela te persegue até cá para a conhecermos?
- Não sei, ela é um pouco tímida, e às vezes desaparece assim sem mais nem menos. Acho que nunca a vou compreender, dificilmente entrarei na realidade dela.
- E será que ela entrará na tua realidade? Conversem um pouco sobre isso, talvez seja benéfico para ambos.
- Conversar é coisa que ela não faz. Acaricia-me, olha-me, gesticula-me, mas por qualquer estranho motivo não me dirige a palavra.
- Que estranho! Mas é muda, a tua namorada?
- Que eu saiba não. Mas é uma possibilidade.
- Há quanto tempo andam juntos, diz-me lá?
- Há pouco mais de dois meses.
- Já é tempo de se conhecerem um pouco melhor…
E o dia foi passando sem grandes sobressaltos, até se chegar à hora de intervalo para almoço. Quando se passeava com a Joana no corredor, Diogo julgou ver um vulto conhecido a acenar-lhe do exterior do edifício, junto ao portão. Os raios de um sol que tardou a surgir naquela manhã impediam-no de discernir, com precisão, a quem pertencia aquela sombra familiar. “Espera um pouco”, pediu ele a Joana, dirigindo-se a passos largos para a entrada da faculdade. Era ela, sorridente e alegre como de costume.
- O que fazes aqui, Inês? Não devias estar a trabalhar?
Ele viu-a a acenar a cabeça negativamente e a devolver-lhe um olhar de felicidade. Mais uma vez aparecia assim, vinda do nada. Talvez tivesse saído mais cedo do emprego e, sabendo da hora de interregno que Diogo tem a meio da tarde, decidira fazer uma agradável surpresa ao seu amado, surgindo numa nuvem mágica, aterrando frente ao portão da faculdade dele juntamente com profundos sentimentos de satisfação, amizade e amor.
- Sua maluca, só tu para me surpreenderes assim…
Ela esboçou um sorriso tímido e encolheu os ombros, como quem diz: “Tu já sabes como sou…”. E Diogo sabia. Acariciou mais uma vez a cara de Inês, ou pelo menos simulou esse gesto. Ele reparou então que ela olhou apreensivamente para o corredor de entrada da faculdade e voltou-se espontaneamente lá para dentro. Quem se aproximava era Joana. Diogo deu alguns passos para a frente e entrou de novo no edifício, com um sorriso aberto pintado na cara.
- Ainda bem que vens aí, Joana. A Inês está aqui fora, vem conhecê-la.
- Ah, a Inês! Bem me parecia que estavas a falar com alguém, só que não vi quem era, o brilho do sol ofusca e não permite ver bem quem está lá fora, só se vêem umas sombras difusas…
- Ela está lá fora, anda… – e puxou Joana pela mão, arrastando-a até ao exterior, como se tivesse necessidade de alcançar algo que poderia fugir caso não fosse apanhado a tempo.
E fugiu mesmo. Diogo olhou em redor, estupefacto. Joana não ficou menos admirada e perguntou-lhe onde estava ela.
- Estive a falar com ela aqui mesmo, juro! – e apontou para a portaria vazia junto à porta de entrada.
- De certeza? Esta zona vê-se lá de dentro e não vi mais ninguém a não ser tu…
- Sim! Aliás, ela estava um pouco mais recuada, aí mesmo onde tu estás.
- Ah, então é diferente. Ela deve ter ido ao café, vamos lá ver?
Diogo pensou um pouco e acabou por considerar que não valia a pena. “Decerto voltou a fugir, ela é assim”, disse, encolhendo os ombros.
- Vocês precisam mesmo de mais comunicação. E também lhe devias dizer que os teus amigos não a vão morder.
Mais uma vez envergonhado por uma pessoa que só ele conhecia, Diogo ficou absorto, pensando nas razões que a sua namorada teria para aparecer e desaparecer de forma tão enigmática e repentina. Será que ela queria observar o que ele fazia na rua, para depois ser apenas dele na privacidade do quarto? Será que o queria picar, provocar, ser uma presença constante que o obrigava, dessa forma, a comportar-se bem e a ser fiel? Ou era um teste à força de tal amor tão singular aquilo que ela queria fazer ao aparecer e desaparecer como uma onda do mar?
“Onda do mar…” – disse ele, baixinho.
- O quê? – perguntou Joana, que ainda estava com ele.
- Nada, nada, estava apenas a pensar…
Onda-do-mar até que era um nome carinhoso e que, de certa forma, servia de metáfora para descrever o comportamento de Inês. Vinha, levava Diogo no seu cume, embrulhava-o num vórtice de sentimentos e paixões e desaparecia com o seu rebentamento, misturando-se com a restante água, dissimulando-se até regressar, com mais ou menos intensidade, num ciclo interminável de ondulações sucessivas. Assim era a Inês do olhar enigmático e penetrante – onda-do-mar, comunicadora do olhar.
- Eu bem digo, – disse Pedro, abandonando a conversa que estava a ter com outros colegas e virando-se para Diogo e Joana – estes jornais são o máximo. Ainda agora estava aqui a comentar com o João e com a Rita a notícia deste gajo que quer mudar de sexo porque acha que “ser travesti não é nenhum desafio, porque se sente mulher.” Diz que já tentou ter relações com um pepino mas que se magoou e desistiu da ideia. O mundo está podre, mas ainda dá para darmos umas gargalhadas dele!
E riram-se com a fotografia do famoso travesti, exuberantemente vestido e pintado, ocupando página inteira do dito jornal.
- É parecido contigo! – gozou Joana, virando-se para o Diogo, que simulou um semblante de indignação e irritação para com ela, o que gerou ainda mais risos.
- Deixa-te de coisas, rapariga… – e Diogo olhou para Pedro – E tu não tens mais nada que fazer senão ler os jornais sensacionalistas?
- Tu também os lês… Isto é como os reality-shows: toda a gente fala mal, mas todos gostam de ver uma ou outra vez.
- É uma alienação, é o que eu digo! Os aliens andam mesmo por aí… Esse travesti é a prova irrefutável!
- Sem dúvida! – concordou Pedro – É verdade, já almoçaram?
A resposta foi negativa. Comeram juntos, no refeitório, em poucos minutos. Mas, com aliens ou sem eles, era tempo de se assistir às últimas aulas do dia. Qual pequeno rebanho comandado por um invisível pastor, os diversos alunos que por ali andavam foram-se dirigindo para o auditório para “acabar o dia em beleza”, como ironizou Diogo.